Meu filho tem colesterol alto: o que fazer?

colesterol em crianças

Meu filho tem colesterol alto: o que fazer?

Essa é uma pergunta frequente em consulta pediátrica. E com ela surgem outras dúvidas: é familiar? O que posso fazer para melhorar?  Precisa de medicação?

Segundo a Diretriz de Prevenção da Aterosclerose na Infância e na Adolescência, elaborada por um conjunto de sociedades médicas, a análise do perfil lipídico deve ser feita em crianças e adolescentes que:

  • Tenham avós, pais, irmãos, tios e primos de primeiro grau com dislipidemia (alterações dos níveis de colesterol) ou aterosclerose prematura;
  • Possuam manifestações clínicas de dislipidemia;
  • Apresentem outros fatores de risco da doença cardíaca, como obesidade, hipertensão arterial, diabetes e tabagismo;
  • Sejam portadoras de doenças que cursam com dislipidemia: hipotireoidismo, síndrome nefrótica, síndrome da imunodeficiência adquirida etc.
  • Sejam usuárias de medicações, como anticoncepcionais, imunossupressores, corticóides, anti-retrovirais etc.
  • Tenham pais com Colesterol total >240 mg/dL.
  • Façam ingestão de dieta rica em gorduras saturadas e/ou ácidos graxos trans.

Os valores de referência para o colesterol encontra-se na tabela abaixo:

 

valores de referência do colesteral

 

Fatores envolvidos

Já se sabe que os fatores de risco para a doença cardiovascular aterosclerótica estão presentes desde o útero e continuam ao longo de todo o curso da vida. Quando o ambiente intra-uterino é desfavorável, o feto pode apresentar retardo de crescimento intra-uterino ou macrossomia (bebê com peso elevado para idade gestacional ou com peso de nascimento >4 kg). Estas condições clínicas estão associadas ao desenvolvimento tardio de diabetes, doença cardiovascular, dislipidemia e hipertensão arterial. Outros fatores como infecções e fumo também podem estar relacionados ao desenvolvimento das doenças cardiovasculares.

Os primeiros anos de vida são tão importantes na programação da saúde e da doença quanto a vida intra-uterina. O crescimento retardado na infância pode estar associado aos ganhos de peso ou de altura inadequados. Tanto o crescimento retardado como o excessivo podem ser fatores de risco para o desenvolvimento tardio das doenças crônicas.

Os níveis de colesterol sofrem variações importantes durante a fase de crescimento e desenvolvimento humano, com diferenças segundo idade e sexo. Os níveis séricos de lipídeos são superiores nas crianças e adolescentes do sexo feminino, sendo esta diferença mais expressiva durante a adolescência. Em média, as meninas apresentam níveis superiores de colesterol total, HDL colesterol e LDL colesterol.

Leite materno e obesidade, hipertensão e dislipidemia: mito ou verdade?

A amamentação materna exclusiva, de recém-nascidos termo e pré-termo, está associada com níveis significantemente mais baixos de pressão arterial na infância. Bebês que ingerem exclusivamente leite materno, rico em gorduras saturadas, apesar de apresentarem níveis elevados de colesterol no início da vida, podem desenvolver uma regulação hepática do metabolismo das lipoproteínas. Desta forma, estas crianças que foram alimentadas com leite materno desenvolveriam posteriormente um perfil lipídico mais favorável quando comparadas a crianças que receberam fórmulas artificiais.

Hábitos de vida: o que mudar?

Subvalorizadas por muitos pacientes e familiares, as mudanças nos hábitos alimentares são de difícil implementação, já que, na maioria das vezes, implicam alterações nos hábitos da família e não somente da criança. Essas modificações contribuem significativamente para a diminuição dos níveis de colesterol, além de melhor controle do peso e, consequentemente, redução do risco de doença cardíaca. No entanto, a busca por um profissional é muito importante para a adequação da dieta à rotina diária de cada criança em conjunto com os seus familiares. Regras básicas (por exemplo, evitar alimentos industrializados com alto valor calórico, precisam ser estimuladas, e as crianças devem ser desencorajadas a repetir as refeições principais. A ingestão de frutas, verduras e legumes sempre deve ser estimulada para que as crianças se adaptem a hábitos alimentares mais saudáveis.

As modificações de hábitos e preferências alimentares introduzidas na infância podem se tornar permanentes. Entretanto, a ingestão de gorduras durante a lactância é fundamental para a formação do sistema nervoso central e as recomendações para uma dieta pobre em gorduras saturadas e colesterol só são aceitáveis para crianças acima de dois anos de idade.

A atividade física regular constitui medida auxiliar para o controle das dislipidemias. A prática de exercícios físicos aeróbios (caminhada, corrida, ciclismo, natação) promove redução dos níveis plasmáticos de triglicérides, aumento dos níveis de HDL, porém sem alterações significativas sobre as concentrações de LDL. (clique aqui para ler nosso artigo: Obesidade, colesterol elevado e hipertensão arterial na criança: qual o papel do exercício físico nessas condições?)

Quem deve ser tratado?

O tratamento farmacológico tem sido indicado preferencialmente para as situações de maior risco e de falha das modificações do estilo de vida para se atingir o nível ideal de LDL, de acordo com a história familiar e fatores de risco presentes.

Perceberam que o “colesterol ruim” (LDL) é mais importante que o colesterol total para determinar necessidade de tratamento medicamentoso? Porém ele não é único fator determinante: história familiar, sinais e sintomas e resposta inadequada às alterações no estilo de vida também interferem na decisão de iniciar ou não a medicação.  Trouxemos aqui uma síntese das recomendações apresentadas pela Diretriz de Prevenção da Aterosclerose na Infância e na Adolescência, mas é preciso entender que cada indivíduo tem suas particularidades. Cada caso deve ser avaliado pelo pediatra/ endocrinologista pediátrico de forma individualizada. Só não há dúvidas sobre a relação entre colesterol elevado e doença cardíaca, sendo necessária atenção desde a fase intra-útero.

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Dra. Rosane Azevedo (Pediatra) / Dra. Maria Luiza Prado (Endocrinologista Pediátrica)

Fontes: I Diretriz de Prevenção da Aterosclerose na Infância e na Adolescência; V Diretriz Brasileira de Dislipidemia e Prevenção da Aterosclerose; Dislipidemia Infantil Gerson de Oliveira, Roberto Teixeira Mendes, Estela Marina Alves Boccaletto – UNICAMP.